Missão adventista: do despertamento ao engajamento (parte 1)

Marcelo Dias - Professor de missiologia na Faculdade de Teologia do Unasp, Engenheiro Coelho, SP

Marcelo Dias – Professor de missiologia na Faculdade de Teologia do Unasp, Engenheiro Coelho, SP

Passaram-se mais de 140 anos desde que J. N. Andrews partiu dos Estados Unidos para a Europa como primeiro missionário oficial adventista do sétimo dia. A decisão tomada pela comissão diretiva da Associação Geral, disponibilizando “o homem mais capaz em nossas fileiras”,1 unida à paixão de Andrews e sua disposição para enfrentar os desafios ameaçadores a fim de levar a outros continentes a mensagem profética, marcou a consolidação de uma inspirada convicção e estabeleceu um paradigma para a identidade missionária do movimento adventista. Hoje, enquanto celebramos o passado e somos desafiados pelo futuro, é tempo de refletir sobre a razão da presença adventista do sétimo dia no mundo.

Depois de 100 anos

Em setembro de 1974, a revista Ministry publicou um artigo de Gottfried Oosterwal, sob o título “Missão adventista: depois de cem anos”. Sua avaliação do primeiro século de missão oficial da denominação notou algumas tendências que incluíam: (1) crescimento do número de membros, de 6 mil para 2,4 milhões; (2) a expansão geográfica, (da presença exclusivamente nos Estados Unidos para 80% dos membros vivendo em outros países); (3) a diversidade étnica dos missionários (apesar da inexatidão dos números, supunha-se que 60% deles não fossem provenientes da América do Norte); (4) o imenso e contínuo crescimento do movimento adventista ao redor do mundo (aproximadamente 5,7% ao ano); (5) o grande número de instituições, hospitais e clínicas, colégios e faculdades, escolas fundamentais, editoras, orfanatos, asilos e indústrias alimentícias, somando 70 mil empregados; e (6) a elevada doação per capita (161,31 dólares por ano).

Wagner Kuhn - Professor e diretor do programa de missiologia no Seminário Teológico da Universidade Andrews, Estados Unidos

Wagner Kuhn – Professor e diretor do programa de missiologia no Seminário Teológico da Universidade Andrews, Estados Unidos

Entretanto, o que surpreendeu Oosterwal não foi essa informação, por mais impressionante que tenha sido. O aspecto mais notável da missão adventista 40 anos atrás era sua unidade. “Depois de cem anos, a missão adventista do sétimo dia”, diz o artigo, “ainda está proclamando, mundialmente, a mesma mensagem que também moveu seus pioneiros e fundadores – isto é, Cristo, o Redentor de todos os homens e o Senhor deste mundo, iniciou a última fase de sua missão, o juízo, para efetuar a restauração do reino de Deus em toda a sua glória.”2

Mais de 40 anos atrás

Em 1974, a alteração mais significativa na natureza da missão adventista havia sido a mudança do evangelismo pioneiro e o plantio de igrejas para os ministérios especializados em educação, obra hospitalar, assistência técnica e administração. Menos que 2% de todos os missionários foram chamados a trabalhar diretamente no campo. A grande maioria fazia parte do ministério no âmbito institucional. Em muitos lugares na América Latina, África e Ásia, isso era o resultado natural de uma igreja em crescimento, que havia desenvolvido então um sistema de apoio por meio de suas instituições.

Ao lado da necessidade de uma contínua alimentação da verdadeira natureza e missão da igreja, bem como uma clara teologia para guiar esse empreendimento, foram listadas como limitações duas tendências da metade dos anos 1970: “uma é a ênfase todo-exclusiva de nosso movimento missionário além-mar como um programa intraigreja, com sua falta de divulgação evangelística a todos os povos da Terra. A outra é o conceito de que missionários deveriam retornar ao respectivo país tão logo houvesse obreiros e líderes locais preparados, capacitados ou desejosos em assumir os ministérios especializados”.3

Quaisquer que fossem os desafios depois de 100 anos de missão, a avaliação geral foi otimista devido ao fato de que a diversidade da igreja não havia afetado sua unidade. Os escritos de Ellen G. White foram citados como uma das causas porque eles tinham dado “à igreja não apenas uma autoridade comum, mas também um princípio comum de hermenêutica sobre quase todo aspecto da vida e da teologia da igreja”.4 Sistema comum de governo, teologia e fraternidade foram outros elementos importantes da dinâmica que manteve a unidade eclesiástica. Apesar dos desafios, certamente um aspecto estava evidente em 1974: a era missionária não havia terminado.

Hoje

Um olhar cuidadoso nos relatórios estatísticos anuais da Associação Geral, e outras informações atuais, pode ajudar a descrever a missão adventista depois de 140 anos. O adventismo está presente em 208 dos 232 países reconhecidos pela Organização das Nações Unidas. Dos mais de 7 bilhões de pessoas que vivem no mundo, aproximadamente 155 milhões vivem em países sem nenhum trabalho adventista estabelecido.5 No fim de 2013, a denominação tinha mais de 18 milhões de membros6 (18.143.745), enquanto um número estimado entre 25 e 30 milhões de homens, mulheres e crianças frequentavam semanalmente os cultos em 76.364 igrejas e 68.845 grupos ao redor do mundo.7

O número de membros da Escola Sabatina continua sendo maior do que o de membros da igreja.8 Os últimos 40 anos testemunharam um aumento de 659% no número de membros,9 com uma média anual de crescimento de 4,76%.10 Nos últimos dez anos, mais de um milhão de pessoas se uniram à igreja cada ano.11 Verifica-se que a Igreja Adventista do Sétimo Dia é a denominação de mais rápido crescimento em países como Austrália e Estados Unidos.12

Um estudo da realidade da igreja hoje evidencia tendências interessantes. Nas últimas quatro décadas, tem havido uma clara mudança da presença adventista no mundo. Seguindo a trajetória geral do cristianismo do Norte Global para o Sul Global, a maioria dos membros da denominação hoje vive naquelas que uma vez foram áreas recebedoras de missionários: 6,6 milhões na África, 5,8 milhões na América Latina, e 3,4 milhões na Ásia.13

Esse número tem aumentado também na “Janela 10/40”.14 Acompanhando o crescimento numérico de fiéis, os dízimos e ofertas também têm aumentado nos últimos 40 anos. Em 2012, um relatório indicou um total de 3.276.600.259 de dólares em recursos financeiros: 70,6% em dízimos, 4,1% da missão mundial (incluindo Escola Sabatina e outros fundos arrecadados pela Associação Geral) e 25,3% de fundos intradivisão e de igrejas locais.15 Em 2010, enquanto o Norte (aproximadamente 8,5% dos membros) contribuiu com 56,5% dos dízimos da denominação, os membros do Sul Global foram responsáveis por 885 milhões de dólares (43,5%).16 Isso mostra que essa área do mundo têm contribuído de maneira mais significativa nos anos recentes.

Outra tendência, nas últimas décadas, é o aumento do número de instituições adventistas. Por volta de 2012, a denominação tinha mais que duplicado a quantidade de escolas fundamentais e secundárias, alcançando o número de 2.128 instituições. Orfanatos, asilos e casas de repouso também mais que duplicaram desde 1980.17 Quando são incluídos hospitais, indústrias de alimentos, clínicas e editoras, o número de instituições vai a 2.841 (ao lado de 5.714 escolas primárias). Os 14 centros de mídia representam uma nova categoria criada desde os anos 1980.18 A mesma tendência é identificada em termos de organizações administrativas. Em 2012, havia uma quantidade recorde de Uniões, Associações e Missões. Consequentemente, o número de empregados gerais e institucionais mais que duplicou desde 1980.19

Uma leitura mais missiológica dos relatórios pode dar pistas sobre a abordagem evangelística que a Igreja Adventista tem empregado como denominação mundial.

  1. O grupo tradicional de colportores evangelistas parece ter estabilizado, de 2008 a 2011, em aproximadamente 7 mil (credenciados e licenciados) ao redor do mundo. Em 2012, havia 13.543 colportores de tempo integral.
  2. Ministérios de mídia também continuam a ser parte da estratégia evangelística, seguindo as tendências gerais da sociedade. Em comparação com 1980, a igreja tinha e operava cerca de 15% das emissoras de rádio em relação a 2012, e mais que duplicou as emissoras de televisão.
  3. A criação dos Ministérios da Mulher (nos anos 1990) tem ajudado as igrejas locais a atender as necessidades e os interesses desse segmento particular da população. Em 2012, foram relatadas 129.320 pessoas batizadas como resultado direto do ministério feminino, 63.180 membros resgatados e 100.933 mulheres não adventistas passaram a frequentar a igreja.
  4. O Ministério da Criança é outro exemplo de evangelismo segmentado. Em 2012, as crianças realizaram 138.630 programas evangelísticos ao redor do mundo.
  5. A principal força da igreja, entretanto, permanece no nível local, por meio do envolvimento leigo em escolas bíblicas. Em 2012, foram realizados 716.162 batismos (comparados a 193.783, em 1980) como resultado direto desse trabalho. Curiosamente, as inscrições em escolas bíblicas têm decrescido. Em 2012, apenas 545.374 matrículas (em 1980, foram 700.777) foram realizadas, além de 1.198.968 campanhas e seminários leigos, um número incomum, se comparado a 251.691 em 2010, e 52.877 em 1980.20

Embora a igreja se alegre com o progresso conquistado em muitas frentes, permanecem ainda desafios externos e internos. Internamente, a questão da retenção de membros, que ultimamente tem recebido atenção, tem levado a denominação a enfatizar o estudo e a implementação do processo intencional do discipulado, bem como a encorajar programas globais de auditoria. Em 2013, o crescimento de membros (262.254) foi menor que o número dos que deixaram a igreja (foram batizadas 1.091.222 pessoas).21 Alguns têm apontado que o processo de institucionalização não tem sido eficientemente conectado com o propósito da igreja, tornando ainda mais difícil cumprir a missão adventista. Outros têm se preocupado com o comprometimento leigo com a missão. Embora as ofertas missionárias tenham alcançado o número recorde em 2012 (85.254.154 dólares), a baixa porcentagem de dízimos e ofertas também foi recorde – 2,6% em 2011 (comparada a 8,67% em 1980).22 O número de estudos bíblicos também tem diminuído: 6.759.370 em 2012, em comparação com 9.184.988 em 1980. Finalmente, o número de missionários tem oscilado: foram recebidos cerca de 1.700 novos missionários (incluindo empregados interdivisão, Serviço Voluntário Adventista e pioneiros de Missão Global). Em 2012, havia 2.260 missionários em atividade (empregados interdivisão e pioneiros de Missão Global).23

Essa realidade parece ter sido refletida na média mais baixa de crescimento anual observada nos últimos dez anos (3,3%). Áreas adventistas tradicionais estão estagnadas,24 incluindo o sul da Alemanha, Polônia, Japão, Hungria, Suíça, Nova Zelândia, Áustria, Portugal e Austrália. Três Uniões na América do Norte também fazem parte dessa lista: União do Pacífico, dos Lagos, e Norte do Pacífico.

Entretanto, as 15 Uniões com declínio mais rápido estão nas Divisões Euro-Ásiática, Transeuropeia e Intereuropeia.25 De acordo com o pastor G. T. Ng, secretário da Associação Geral, “o número de membros tem aumentado em função do número de batismos, em vez de simplesmente fatores demográficos. Em 1960, os batismos no Norte Global representavam 31%, e no Sul Global, equivaliam a 69%. Em 2010, os batismos no Sul Global cresceram três vezes mais, alcançando a extraordinária marca de 96,2% naquele ano.”26

Essas realidades dissonantes também são confirmadas pelas diferentes preocupações levantadas nas duas regiões: enquanto o Norte Global discutia ativamente a ordenação de mulheres, o Sul Global parece ter descartado isso, preferindo manter o foco na missão. Analisando esse panorama, David Trim, diretor do Departamento de Arquivos, Estatísticas e Pesquisas Adventistas, comentou: “Nós estamos entusiasmados com esse crescimento num tempo em que, globalmente, muitos grupos religiosos não estão crescendo. Agradecemos a Deus pelo fato de que, em face dos desafios tais como opressão política, perseguição religiosa e crescente materialismo e secularismo, esse movimento, que enfatiza esperança e plenitude, continua crescendo.”27

Amanhã

As oportunidades e desafios nos últimos 40 anos e, especialmente, no começo do século 21, têm levado a missão adventista a aprender, enfatizar e desenvolver dinâmicas missionárias específicas. À medida que a denominação enfrenta o futuro, algumas questões antigas permanecem, e outras novas passam também a exigir uma resposta: Como a igreja cumprirá a quase impossível tarefa de alcançar o mundo com o evangelho? O que mais pode ser feito (e de melhores formas) para cumprir essa meta abrangente? Como a igreja poderia canalizar sua imensa “energia missionária”, especialmente com os jovens? Como a igreja pode providenciar oportunidades para pessoas que desejam servir em campos missionários? Como podem ser criadas novas estruturas e plataformas de missão, de modo que mais missionários trabalhem em áreas não alcançadas (Janela 10/40 e outras)? Como a igreja alcançará as massas urbanas, sem negligenciar as elites? Como podemos criar mais oportunidades de serviço num plano contínuo entre empregados interdivisão e voluntários adventistas? Essas questões serão abordadas na segunda parte deste artigo.


Referências:

1 Ellen G. White, Carta 2a, 1878 (To “Dear Brethren in Switzerland”), 29/8/1878, Manuscript Releases, v. 5, p. 436.

2 Gottfried Oosterwal, Ministry, setembro de 1974, p. 24-27.

3 Ibid.

4 Ibid.

5 “Trabalho estabelecido” é definido oficialmente como país ou área do mundo em que um ou mais dos seguintes critérios tenham sido cumpridos: (1) uma igreja organizada que se reúna regularmente; (2) um posto missionário, posto de saúde ou escola funcionando regularmente; ou (3) um empregado regular, de tempo integral, estabelecido no país ou área, empenhado em atividades evangelísticas para conquista de pessoas, por meio de Escola Sabatina, um grupo organizado ou uma escola de idiomas.

6 Mark A. Kellner, Adventist Review, 17/12/2013, <www.adventistreview.org>.

7 2014 Annual Statistical Report, 27.<documents.adventistarchives.org/Statistics/ASR2014.pdf>

8 Em 2011, representava 107% em comparação a 119.07% em 1980. 2014 Annual Statistical Report, revisado em agosto de 2014, 7, <documents.adventistarchives.org/Statistics/ASR/ASR2014.pdf>

9 No fim de 1973, havia 2.390,124 membros. Os números usados para calcular porcentagens são do 111th Annual Statistical Report of Seventh-day Adventists 1973, <documents.adventistarchives.org/Statiscs/ASR/ASR1973.pdf> e 2014 Annual Statistical Report.

10 O índice da média anual de crescimento teve por base uma tabela encontrada no site <www.adventiststatistics.org>.

11 Andrew McChesney, Adventist Review, 12/10/2014, < www.adventistreview.org>.

12 Edwin Manuel Garcia, Adventist News Network, <news.adventist.org>; G. Jeffrey MacDonald, USA Today, 17/03/2011, <wsatoday30.usatoday.com >

13 Edwin Manuel Garcia, Op. Cit.

14 No fim de 2011, menos de 2 milhões de membros viviam no Norte Global. Os números do Oriente Médio têm sido auditados. O número de membros na Janela 10/40 cresceu de 250 mil em 1992, para mais de 2,5 milhões em 2012, mas a proporção em relação à população tem crescimento insignificante, não seguindo o que acontece em outras partes do mundo. 2013 Annual Statistical Report, 2, 4, e 2014 Annual Statistical Report, 80.

15 Por exemplo, em 1980, os dízimos representavam 62,1%, ofertas missionárias 11,2%, recursos locais e intradivisão 27,1% do total de entradas (2014 Annual Statistical Report, 4). Uma observação importante é que os membros dão mais dízimos do que ofertas missionárias.

16 Em comparação a 1960, esse foi um crescimento de 1.171% em termos reais, em contraste a 131% do Norte Global. G. T. Ng, Journal of Adventist Mission Studies, v. 8, nº 2, p. 43.

17 Sumário de Instituições (tabela 7), 2014 Annual Statistical Report, 4.

18 Escolas secundárias e superiores mais que duplicaram desde 1980: 882 escolas; 80 orfanatos em 1980 e 170 em 2012. Total de instituições em 1980: 1.451. 2014 Annual Statistical Report, 4-6.

19 Uniões: 124, um crescimento de 55% em relação às 80 existentes em 1980. Associações e Missões: De 377 em 1980 para 601 em 2012. Empregados gerais e institucionais: em 2012 havia 255.982 empregados ativos, em comparação a 85.839 em 1980 (2014 Annual Statistical Report, 4, 5).

20 O número de colportores era 7.073 em 1980 e 5.315 em 2012. Também em 2012, havia 455 emissoras de rádio, menor que o número de 1980 – 3.328. Por outro lado, as emissoras de TV somavam 918 em 2012, e 343 em 1980, com um pico de 2.252 em 2004. Em termos de Ministérios da Criança, a assistência por adventistas e não adventistas às Escolas Cristãs de Férias teve um pico em 2005 (2014 Annual Statistical Report, 5-7).

21 2014 Annual Statistical Report, 27.

22 34.564.983 dólares em ofertas missionárias, divididos por 398.880.407 dólares em dízimos (2014 Annual Statistical Report, 88).

23 O número de empregados interdivisão caiu de 1.497 em 1980, para 92 em 2012. Empregados interdivisão ativos também diminuíram de 1.388 em 1980, para 839 em 2012. Tem havido uma tendência de declínio geral, desde os anos 1980 (David Trim, 2012 Annual Statistical Report, <documents.adventistiarchyives.org/Statistics/Other/ACRep2012.pdf>.

24 “Estagnação” é definida pelo fato de o número de membros ter crescido a uma taxa menor que 12% em um período de dez anos.

25 A razão dada é a perda de população em nações do leste europeu, que tem retrocedido em virtude de uma grande crise econômica e do alto desemprego na antiga União Soviética e adjacências.

26 G. T. Ng, Op. Cit., p. 38.

27 Mark A. Kellner, Op. Cit.

 

Wellington Barbosa

Wellington Barbosa

Formado em Teologia e Administração, especialista em Aconselhamento Familiar, mestre em Teologia e doutorando em Ministério pela Andrews University. Serviu como pastor nos Estados do Paraná e de São Paulo. É editor da revista Ministério.

  • Marcos Rocha

    Infelizmente não vemos bons exemplos como o seu de profissionais da saúde.