Teologia dos dons

Marcos De Benedicto - Editor-chefe da Casa Publicadora Brasileira

Marcos De Benedicto – Editor-chefe da Casa Publicadora Brasileira

A igreja não existe plenamente sem o Espírito Santo. Se Jesus é o maior presente de Deus à humanidade, o Espírito Santo é o maior presente de Cristo à igreja. E os dons do Espírito são uma das maiores expressões do Espírito em cada congregação. Igreja sem o Espírito Santo é quase uma contradição.

Após ter dado a vida na cruz, tendo provido a base legal para o cumprimento da promessa do Pai de enviar o Espírito Santo (At 2:33), o Salvador subiu triunfalmente às alturas e concedeu, por meio do Espírito, “dons aos homens” (Ef 4:8; 1Co 12:7, 11). São esses dons que tornam a igreja efetiva e relevante em cada contexto e período da história.

Essa visão da atividade do Espírito na dinâmica da igreja é um dos legados teológicos do apóstolo Paulo. Ao lado de João, que destaca a pessoa do Espírito Santo, e de Lucas, que enfatiza a atuação do Espírito, Paulo é um dos grandes nomes da pneumatologia do Novo Testamento. Para se ter uma ideia de sua contribuição nessa área, basta mencionar que, das 379 vezes que o termo grego pneuma (“e/Espírito”) aparece no Novo Testamento, 146 estão nas 13 cartas paulinas.

Paulo apresenta o conceito dos dons espirituais como “ferramentas” para a edificação da igreja. Embora esse tema não seja exclusivo dele (ver 1Pe 4:10, 11), o apóstolo é seu principal formulador. Ele discute o assunto em três passagens principais: Romanos 12:4-8, 1 Coríntios 12-14 e Efésios 4:7-16. Para potencializar o uso dos dons na igreja hoje, é necessário entender sua natureza e função.

 

Conceitos e categorias

Muitas definições têm sido dadas para os dons espirituais, a maioria enfatizando sua origem (Deus/Cristo), sua distribuição (o Espírito Santo) e seu propósito (edificar a igreja). Por exemplo, Peter Wagner diz que “um dom espiritual é um atributo especial concedido pelo Espírito Santo a cada membro do corpo de Cristo, de acordo com a graça de Deus, para uso no contexto do corpo”.1

James Packer prefere um enfoque cristológico: “A partir do Céu, Cristo usa os cristãos como sua boca, suas mãos, seus pés e até seu sorriso. É por meio de nós, seu povo, que Ele fala e age, encontra, ama e salva aqui e agora neste mundo.”2

No Novo Testamento, o termo grego normalmente traduzido como “dom” é charisma (plural charismata). Usado quase exclusivamente por Paulo, charisma aparece 17 vezes no Novo Testamento.3 Essa palavra pré-paulina, derivada ou da raiz charis (“graça”) ou do verbo charizomai (“dar graciosamente”), significa “dom generoso” ou “dom da graça”, no sentido de que Deus, livre e soberanamente, concede “graças” especiais aos crentes. Os coríntios usavam a palavra pneumatika, mas Paulo preferiu charisma ou charismata, certamente para mostrar que o dom vem gratuitamente de Deus e não é conquistado por merecimento humano.

Alguns estudiosos fazem uma distinção entre “dons” e “talentos”. Dwight Pentecost, por exemplo, escreve que, “quando falamos dos dons do Espírito, não estamos falando dos talentos nativos com que certos indivíduos têm sido dotados desde o nascimento natural”, mas de “capacitação sobrenatural”.4 Para Siegfried Schatzmann, há uma “clara ausência de apoio exegético para a equação dos carismas com os talentos naturais”.5

Outros autores, contudo, não veem grande diferença entre ambos os conceitos. Donald Carson sugere que “Paulo não se sentiria desconfortável com [a ideia] de que os dons espirituais sejam feitos de uma mistura dos talentos naturais – que ele consideraria ainda como sendo dons de Deus – e de uma dotação específica energizada pelo Espírito”.6 Bruce Bugbee, para quem “os talentos naturais são dados em nosso nascimento físico”, enquanto “o dom espiritual é dado em nosso nascimento espiritual”, reconhece que os talentos “podem ser transformados pelo Espírito Santo e empoderados como dons espirituais”.7

Os autores adventistas em geral veem talentos e dons como bênçãos celestiais relacionadas. James Zackrison, colocando o uso dos dons espirituais como “parte do quadro mais amplo do discipulado cristão”, observa que, às vezes, os dons apenas “realçam as habilidades naturais” e às vezes são algo “totalmente diferente”.8 Ellen White usou ambas as palavras intercambiavelmente, embora ressaltando o uso espiritual dos talentos. Na perspectiva dela, o dom é um fluxo constante da graça: Deus nos dá o talento e nós o devolvemos a Deus, que o retorna purificado e multiplicado, de modo que o fluxo de bênçãos possa beneficiar o maior número possível de pessoas.9

De fato, não precisamos colocar uma barreira entre os dois conceitos. Profecia e compaixão, por exemplo, estão na mesma categoria de dons. O talento colocado a serviço de Deus se transforma em dom. O que faz a diferença é se vivemos para exaltar a nós mesmos ou para glorificar a Deus.

Há também um debate sobre o que o Espírito Santo outorga à igreja: atividades, ministérios ou pessoas? Kenneth Berding argumenta que o conceito que conecta as passagens que tratam dos dons espirituais é “ministérios” dados pelo Espírito, e não “habilidades” especiais.10 William Atkinson escreve: “Embora seja mais simples ver os dons do Espírito em [1 Coríntios] 12:8-10 em termos de atividade, a sobreposição que existe entre essa lista e uma similar no fim do capítulo indica que o Espírito também concede pessoas.”11

A questão tem que ver com a melhor tradução do termo pneumatikon, de gênero indeterminado, de 1 Coríntios 12:1: seria “dons espirituais”, “coisas espirituais” ou “pessoas espirituais”? Literalmente, Paulo disse: “A respeito dos espirituais [pneumatika], não quero, irmãos, que sejais ignorantes.” O que os leitores de Paulo teriam entendido?

Há três possibilidades: (1) “mulheres espirituais” (palavra feminina na gramática grega), (2) “dons espirituais” (palavra neutra) e (3) “pessoas espirituais” (palavra masculina). O contexto favorece “pessoas espirituais”.12 Na verdade, isso não faz muita diferença. O Espírito Santo trabalha com as pessoas, habilitando-as a desenvolver ao nível máximo seus ministérios, papéis, funções e tarefas.

Vale mencionar ainda que os teólogos têm feito tentativas de classificar os dons bíblicos em três (ou mais) conjuntos. Porém, esses arranjos às vezes parecem arbitrários, embora possam ter valor didático. Se fôssemos fazer qualquer categorização, uma opção seria partir de 1 Coríntios 12:4-6, onde Paulo particularizou diferentes tipos de dons (charismata), mas o mesmo Espírito; diferentes tipos de serviços (diakoniai), mas o mesmo Senhor; e diferentes tipos de realizações (energemata), mas o mesmo Deus.

Essa abordagem trinitária, consciente ou inconsciente, tem a vantagem de envolver todas as pessoas da Divindade. “A santa Trindade é o vínculo unificador dos dons do Espírito, serviço a Cristo como Senhor e atividades iniciadas por Deus.”13

 

Teoria na prática

Com base nos argumentos do apóstolo, podemos tirar várias lições sobre o uso dos dons para a igreja hoje. Vou enumerar sete:

  1. Conhecer sobre os dons aumenta a possibilidade de seu uso correto. Paulo não queria que os coríntios fossem ignorantes (literalmente, “sem conhecimento”, sem gnosis) sobre o tema (1Co 12:1), embora isso estivesse ocorrendo. Hoje também temos que estudar sobre os dons.
  2. A ênfase na variedade de dons indica múltiplas possibilidades. O fato de nenhuma das quatro listas de dons repetir totalmente as outras sugere que elas não exaurem todos os dons possíveis, mas são meramente ilustrativas ou representativas. “O interesse de Paulo em 1 Coríntios 12:8-10 foi oferecer uma lista considerável de modo que eles [os coríntios] parassem de ser singulares em sua própria ênfase.”14 Em nossos dias, Paulo talvez pudesse acrescentar cantores, oradores de rádio e TV, colportores e médicos, para mencionar apenas alguns.
  3. O ideal é que cada um trabalhe de acordo com sua habilidade e paixão. Forçar alguém a fazer o que não sabe e não gosta é tortura espiritual. A pessoa errada no lugar errado, pela razão errada, com o método errado, é garantia de fracasso. Contudo, isso não significa que a pessoa só possa atuar se tiver um grande preparo.
  4. O amor é o critério para regular o uso dos dons. Ter todos os dons e qualidades sem o amor é igual a zero. Sem o amor, o dom se torna um falso carisma, porque o Espírito que capacita é o Espírito do amor. Você preferiria ter uma igreja sem muitos dons ou sem amor?
  5. O dom perde a legitimidade se romper a unidade ou ignorar a diversidade. A analogia do corpo já era conhecida, mas Paulo a tornou efetiva no contexto da igreja. O objetivo dos dons é a cooperação, não a competição; a unidade, não a desunião; o crescimento, não a desintegração. Contudo, o apóstolo reconheceu o valor da diversidade. Ele destacou três elementos: unidade, diversidade e maturidade. Todos são essenciais para o funcionamento saudável da igreja.
  6. Os dons que têm maior visibilidade não são mais importantes do que os menos destacados. Cristãos com menos dons não são membros de segunda classe (1Co 12:22). Eles são indispensáveis.
  7. Apenas o dom que constrói é bom para a igreja. Paulo gostava da palavra “edificar” (oikodomen), que significa “construir”. Os dons, serviços ou ministérios devem atuar para obter resultados positivos. “Os dons não são brinquedos para nossa própria diversão, mas sim instrumentos para a edificação.”15 Eles não visam ao sucesso da pessoa, mas ao bem comum (1Co 12:7). A finalidade é abençoar a comunidade. Por isso, tudo deve ser feito com ordem (taxin), sem caos (1Co 14:26-40). Quando cada elemento se encaixa em perfeita sincronia, a igreja é construída de acordo com o projeto original.

Você tem usado seus dons para edificar a igreja e glorificar a Deus?

 

Referências

1 C. Peter Wagner, Your Spiritual Gifts Can Help Your Church Grow, ed. rev. (Ventura, CA: Regal, 1994), p. 34

2 J. I. Packer, Keep in Step with the Spirit: Finding Fullness in Our Walk with God, ed. rev. (Grand Rapids, MI: Baker, 2005), p. 70, 71.

3 Outras palavras usadas para “dom” são charis, dorea, doma, dorema, doron, dosis e pneumatikon.

4 Dwight J. Pentecost, The Divine Comforter: The Person and Work of the Holy Spirit (Grand Rapids, MI: Kregel, 1998), p. 165, 166.

5 Siegfried S. Schatzmann, A Pauline Theology of Charismata (Peabody, MA: Hendrickson, 1987), p. 73.

6 D. I. Carson, Showing the Spirit: A Theological Exposition of 1 Corinthians 12-14 (Grand Rapids, MI: Baker, 2000), p. 37.

7 Bruce Bugbee, What You Do Best in the Body of Christ (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1995), p. 62, 63.

8 James W. Zackrison, Practical Spiritual Gifts (Boise, ID: Pacific Press, 1996), p. 11, 15.

9 A passagem clássica/representativa de Ellen G. White sobre o assunto se encontra em Parábolas de Jesus (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 328.

10 Kenneth Berding, “Confusing Word and Concept in ‘Spiritual Gifts’: Have We Forgotten James Barr’s Exhortations?”, Journal of the Evangelical Theological Society 43 (2000), p. 39, 46. Para ele, o conceito de habilidades especiais está presente apenas em 1 Coríntios 12:8-10 (p. 39)

11 William P. Atkinson, “1 Corinthians”, em A Biblical Theology of the Holy Spirit, ed. Trevor J. Burke e Keith Warrington (Eugene, OR: Cascade, 2014), p. 154.

12 W. Larry Richards, 1 Corinthians (Nampa, ID: Pacific Press, 1997), p. 210, 211.

13 Anthony C. Thiselton, A Shorter Guide to the Holy Spirit: Bible, Doctrine, Experience (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2016), p. 29. Para outra possibilidade, ver George E. Rice, “Dons Espirituais”, em Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, ed. Raoul Dederen (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 682.

14 Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1987), p. 585.

15 Warren W. Wiersbe, Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento (Santo André, SP: Geográfica, 2006), v. 2, p. 47.

Wellington Barbosa

Wellington Barbosa

Formado em Teologia e Administração, especialista em Aconselhamento Familiar, mestre em Teologia e doutorando em Ministério pela Andrews University. Serviu como pastor nos Estados do Paraná e de São Paulo. É editor da revista Ministério.